o quinze centímetros de uma seta de
ponta larga explodiram de súbito no seu peito. A seta era
vermelha viva, como se tivesse sido pintada com sangue.
O punhal caiu da garganta de Bran. O homem grande
cambaleou e caiu no córrego de barriga para baixo, A seta
partiu-se sob seu corpo. Bran viu sua vida fugir, aos
redemoinhos, pela água abaixo.
Osha olhou em volta quando os guardas de seu pai surgiram
por entre as árvores, de armas na mão, e deixou cair a lança,
- Misericórdia, senhor - ela gritou para Robb.
Os guardas tinham uma expressão estranha, pálida, no rosto
ao depararem com aquela cena de morticínio. Olhavam para
os lobos, inseguros, e quando Verão regressou para junto do
cadáver de Hali para comer, Joseth deixou cair a faca e
precipitou-se para as árvores, vomitando. Até Meistre Luwin
pareceu chocado ao surgir por trás de uma árvore, mas só por
um instante. Então balançou a cabeça e atravessou o córrego
até junto de Bran.
- Está ferido?
- Ele cortou minha perna - Bran respondeu-, mas não senti
nada.
Enquanto Meistre se ajoelhava para examinar a ferida, Bran
virou a cabeça. Theon Greyjoy estava ao lado de uma árvore-
sentinela, de arco na mão, e sorrindo. Sempre sorrindo. Meia
dúzia dc setas encontravam-se espetadas no chão macio a
seus pés, mas ele só precisara de uma.
- Um inimigo morto é uma beleza - anunciou.
—Jon sempre disse que você era um cretino, Greyjoy - disse
Robb em voz alta. - Devia acorrentá-lo no pátio e deixar
Bran praticar um pouco de tiro ao alvo em você,
- Devia me agradecer por ter salvado a vida do seu irmão.
- E se seu tiro tivesse falhado? - disse Robb. - E se só o tivesse
ferido? E se tivesse feito sua mão saltar ou ferido Bran em vez
dele? Sabia que o homem podia estar usando uma placa no
peito, porque tudo o que você conseguia ver era a parte de
trás de seu manto. Que teria acontecido então ao meu irmão?
Chegou a pensar nisso, Greyjoy?
O sorriso de Theon desaparecera. Encolheu os ombros,
carrancudo, e começou a arrancar as setas do chão, uma a
uma.
Robb olhou então para os guardas.
- Onde estavam vocês? - exigiu saber. - Eu tinha certeza de
que vinham logo atrás de nós. Os homens trocaram olhares
infelizes.
- Nós os seguíamos, senhor - disse Quent, o mais novo, cuja
barba não passava de uma suave penugem castanha. - Só que
primeiro esperamos por Meistre Luwin e pelo seu asno, com k
vossa licença, e depois, bem, aconteceu que... - deu uma
olhadela a Theon e desviou rapidamente o olhar,
envergonhado.
- Eu vi um peru - disse Theon, aborrecido pela pergunta. -
Como haveria de saber que ia deixá-lo sozinho?
Robb tornou o olhar para Theon. Bran nunca o vira tão
zangado, mas não disse nada. Finalmente, ajoelhou ao lado de
Meistre Luwin.
- Qual é a gravidade da ferida do meu irmão?
- Não passa de um arranhão - disse o meistre. Molhou um
pano no córrego para limpar o golpe. - Dois deles vestem-se de
negro - disse a Robb enquanto trabalhava,
Robb lançou um olhar para onde Stiv jazia, estatelado no
córrego, com o esfarrapado manto negro a mover-se
irregularmente, puxado pela corrente.
- Desertores da Patrulha da Noite - disse em tom sombrio. -
Deviam ser loucos para vir tão perto de Winterfell.
- A loucura e o desespero são muitas vezes difíceis de
distinguir - disse Meistre Luwin,
- Enterramos os corpos, senhor? - perguntou Quent.
- Eles não nos teriam enterrado - disse Robb. - Corte-lhes as
cabeças, vamos mandá-las de volta para a Muralha. Deixe o
resto para os corvos.
- E esta? - Quent sacudiu o polegar na direção de Osha.
Robb aproximou-se dela. Era uma cabeça mais alta que ele,
mas caiu sobre os joelhos quando o viu caminhar em sua
direção.
- Conceda-me a vida, senhor de Stark, e serei vossa.
- Minha? Que faria eu com uma traidora?
- Eu não quebrei juramento nenhum. Stiv e Wallen fugiram
da Muralha, eu não. Os corvos negros não têm lugar para
mulheres.
Theon Greyjoy aproximou-se devagar.
- Dê-a aos lobos - ele disse a Robb. Os olhos da mulher
saltaram para o que restava de Hali e afastaram-se com a
mesma velocidade. Estremeceu. Até os guardas pareceram
nauseados.
- Ela é uma mulher - disse Robb.
- Uma selvagem - disse-lhe Bran. - Ela disse que deviam me
manter vivo para me levarem a Mance Rayder.
- Você tem um nome? - perguntou-lhe Robb.
- Osha, ao seu dispor - ela murmurou em tom amargo.
Meistre Luwin se levantou.
- Faríamos bem em interrogá-la.
Bran conseguiu ver o alívio no rosto do irmão.
- Será como diz, meistre. Wayn, ate-lhe as mãos, Ela volta
conosco para Winterfell... e viverá ou morrerá conforme as
verdades que nos ofereça.

Tyrion

- Quer comer? - perguntou Morel, carrancudo. Segurava um
prato de feijão cozido com a mão grossa de dedos curtos.
Tyrion Lannister estava faminto, mas recusou-se a deixar que
aquele bruto o visse rebaixado.
- Uma perna de carneiro seria agradável - disse ele da pilha de
palha suja que se acumulava a um canto de sua cela. - Talvez
um prato de ervilhas com cebola, um pouco de pão fresco
cozido tom manteiga e um jarro de vinho com açúcar para
emp